Sunday, May 06, 2007


Haviam pássaros que cantavam no timbre da infância e haviam flores que coloriam o jardim e também balanços que movimentavam as manhãs ensolaradas da primavera. Não recordo-me dos dias frios, com exceção dá páscoa, em que corríamos freneticamente à procura dos multicoloridos ovos que por sua vez enfeitavam os ninhos e adocicavam aqueles dias escuros, porém brilhantes! Haviam beija-flores à procura de néctar assim como à todo momento procurávamos diversão. As manhãs eram infinitamente longas e o término destas era comprovado com desapontamento, mas de qualquer forma havia barulho e este jamais silenciava enquanto o horizonte do entardecer não despontava dando lugar à belas estrelas, que só eram possíveis contarmos em noites de Natal. E eram muitas, não fosse pelas tantas luzinhas, as casas se iluminariam de intermináveis constelações que pairavam pelos telhados. Havia uma saborosa espera ritualmente bolada naquelas noites, para que os presentes de Natal não fossem meros enfeites na árvore, e sim o motivo pelo qual nossos olhos brilhavam ansiosamente. Era chegada à meia noite, algumas casas podiam ter o prazer de receber o Papai Noel, como na minha, mas este não muito me agradava, o que realmente fascinava eram os sinos, que batiam ritmicamente indicando o fim de uma longa espera. Eu hei de convir, que com o passar dos anos este cenário habitualmente familiar presente como um vulto repentino na memória se transformou de maneira estrondosa, fazendo com que neste momento, eu admire esta paisagem não mais colorida como outrora. O silêncio paira sobre o jardim, não há mais tantos pássaros à procura de flores nem mesmo pétalas de rosa espalhadas pelo chão pois a roseira que escondia o muro, não existe mais, deixando transparecer sob a pintura os sulcos dos tijolos gastos pelos anos. O balanço que nos velhos tempos nos levava às alturas, não mais compõe a paisagem. Procuro remontar na memória aquele jardim de despreocupação, um soneto lírico cuidadosamente arranjado para que a infância nada mais fosse que uma bela lembrança dos bens que compunham aquela existência lúdica. Hoje somam-se vinte anos, prefere-se os dias frios e nublados a dias ensolarados de primavera, e prefere-se à noite que nem sempre cintila estrelas e a leveza que só o silêncio pode contemplar e rapidamente os dias consolidam pontes enfraquecidas pelos anos que somente belas recordações podem remontar.

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