Saturday, October 27, 2007



Sobre o sonho...


Um homem no alto de um andaime fortalece o reboco de uma construção, enquanto isso a rua oscila entre o movimento dos transeuntes e dos ônibus e carros que passam. A estrutura da cidade parece comportar todos os pedestres mal vestidos e bem vestidos, os bêbados caídos na sarjeta os mendigos e papeleiros, os doutores e as socialites. Pessoas que se incorporam a um incessante vaivém. O dia é cinzento da cor do cimento que o homem pacientemente prepara para concretar as futuras paredes de um edifício. O sol nem mesmo tem a chance de se por no horizonte, pois o dia está pálido como uma árvore frutífera no outono.

Como um filme rodado em película preto e branco ele segue sem muitas expectativas, o cotidiano se reafirma quando ao entardecer as mães buscam seus filhos na escola, os trabalhadores marcham rumo à suas casas e os carros engarrafam o trânsito. Existe algo de monotonia nesta segunda-feira, nem mesmo as manchetes dos jornais ou os hiperlinks do navegador conseguem abrir uma janela que traga um fato brilhante a este dia, que soa como badaladas de um sino de igreja compassado demais.

Deitada no divã, esta uma mulher que sofre com problemas de distúrbio de sono, para ela o mesmo dia que está prestes a começar, para muitos está chegando a seu fim. Ela sonha, sonha acordada enquanto o divã vai relaxando seus músculos à medida que uma voz se incorpora à sala. Uma sala não muito espaçosa, bem mobiliada, cheirando a sândalo. O cheiro também se incorpora na imaginação da mulher e ela agora aliviada, pode ter certeza de que o sonho é mesmo real.

Sonha-se dormindo e sonha-se acordado, como se o pensamento dela fosse o sonho da noite anterior que a conectaria ao presente. Há um espelho que reflete sua nudez, a identidade que só possui corpo enquanto a alma não pode ser refletida, ali está uma porta entreaberta para ela extrapolar os limites impostos pelo pudor. Talvez ela sonhe com algo que nunca aconteceu, com um passado invisível em sua vida, como uma das faces ocultas de uma obra surreal. Então sonha-se em vão como se fossemos um mero boneco de engonzo neste teatro real. Para descrever um sonho é preciso lembrar-se dele, então é muito fácil compará-lo à memória mais remota que possamos obter.

No dia à dia, montamos artifícios para fazer com que nossos sonhos tornem-se realidade ou fazemos da realidade o nosso próprio sonho? Viver ou sonhar eis a questão, neste paralelo acredito que não existe espaço para ilusão, pois a linearidade da vida é sonhar. Enquanto o homem levanta paredes, ele sonha com as cores as quais poderá pintá-la e sonha também com a forma das aberturas que dará às janelas e com o quê a parede vai esconder o que antes estava explícito.O movimento permanecerá o mesmo, as pessoas continuarão no mesmo ritmo, e sonharão sempre em ser algo que na rua, elas não podem ser. E por isso, a cidade continua em sua monotonia de ir e vir, sem cores substancialmente vivas para colori-la.

Enquanto somos jovens e bonitos queremos ser vistos como tal, quando formos velhos esconderemos as rugas ou as deixaremos tomar conta de nossa face, de qualquer forma a beleza que encanta o dia que se fará amanhã é a mesma com que sonhamos enquanto estamos dormindo um sono reparador. Reparar os estragos é sonhar com um conserto, e um concerto é um sonho artístico em elevado tom. Entre manutenção, concertos e desconsertos é preciso derrubar cenários, para construir novos, ou mudar os móveis de posição para deixar a sala mais aconchegante. Esta é a fantasia que queremos aprontar de antemão nos sonhos, para que o próximo carnaval seja mais radiante do que o último, mesmo que todo carnaval tenha fim.

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