Sunday, August 06, 2006


Pick me Up







Me encontro à beira da janela, à admirar o movimento por vezes irritante que insiste em balbuciar palavras incoerentes lá fora. Os típicos sons inquietos e contraditoriamente pacatos que posso ouvir a milhas de distância porque me soam um tanto familiares. Enquanto as nuvens movimentam-se vertiginosamente do lado de fora, sinto ter alcançado a plenitude dominical do lado de dentro. Vi dois pombos se recostarem no telhado vizinho, esculpiam uma singela paisagem - nenhum pouco atípica- sem deixar de ser bela. Os pensamentos levantam vôo à medida que os pássaros fogem do meu campo de visão. Me intrigam estes movimentos externos que pousam sob minha tarde tornando-a mais animadora. Aqui dentro a bagunça tem vida própria. Desordena até mesmo minha existência incoercível neste dia, agora nublado. Com uma das mãos apoio a cabeça, àqueles pensamentos fulguram sobre mim, misturam-se a flashes de algum sonho que tive durante a noite passada. Misteriosamente atraem a minha atenção povoam minha imaginação e instigam meu faro investigativo. São lembranças abstratas, enquanto procuro elementos que as tornem concretas, quero reconstituí-las da melhor forma plausível!* Porque diabos as lembranças nos tiram o sossego em uma tarde de domingo? Nada de inovador, obviamente, mas elas insistem em dar vazão a um peso contínuo sob meu corpo. Enquanto continuam truncadas, as minhas palavras são como folhas levadas pelo vento matinal, inexorável às intempéries e ao frio que congela os dedos das mãos. Elas voam infinitamente longe daqui, procuram um porto seguro nobre e receptivo e procuram pontes aptas a formar frases. Palavras procuram um reconforto sem fim, encontram-se entre o sonho e a realidade, expressam dúbias verdades. Minha necessidade de pronunciá-las não é maior a minha vontade de joga-las ao vento. Esta leve brisa que invade meu quarto, deixando indícios de que a primavera está por vir, ainda mais libertadora do que os romances épicos que me recordo. Descobri numa viajem entrelaçada ao universo que não posso tocar com as mãos, que a liberdade é nossa utopia preferida. È um erro querer o mais profundo oceano enquanto só se têm olhos pra sua superfície. È um erro a busca desvairada por superfícies que nos dêem a sensação de euforia mais absurda que se possa conceber. E assim correm os dias, persisto no erro, emaranhados na ansiedade que me faz crer por uns instantes que posso prever algumas coisas. Tolice. O segredo é a sensação. Então me transporto à noite sem que o dia se quer tenha acabado. Passos largos na cidade proibida e pesadelos no submundo. Seria este o final contra regra, em suma, estamos todos acondicionados dia- a -dia à este romance caudaloso de verás o combustível inerente de vida.