Tuesday, May 15, 2007


Uma súbita abstração desenrola palavras doces com sabor de vinho tinto, seco.

Alguém te disse que enquanto seu café esfria sobre a mesa e as folhas do jornal posto à frente dos teus olhos, voam com o vento, dissipando as páginas ao tempo que a vertigem mundana instalada do lado de fora, por vezes ensurdecedora, corre impetuosamente sem que os ponteiros do relógio possam se quer controlá-la. Pois é assim que você se sente, impotente aos acontecimentos que se fazem presentes nesta batalha diária, contra o tempo. Muitas vezes o inesperado se faz espera, e não há porque tanto falar em esperar quando isto é em vão. Alguém te disse que amanhã possivelmente fará frio, mas a sua antena ligada 24 horas às intempéries da vida, não te disse que era para ti te agasalhar, e você não dá a mínima para as máximas, afinal, você mesmo diz que o frio é psicológico, mesmo não sendo entendedor das teorias psicanalíticas, e se este alguém ousar te apresentar um cara, quem sabe aquele tal de Skinner, você provavelmente dirá: - Um doido varrido!Então, agora você está sentado diante do seu computador, conectado ao que você quiser, mas sente que está faltando algo. Então, você abre uma garrafa de vinho e o saboreia lentamente, pensa no tempo que levou para que ele estivesse ali pousando nas tuas papilas? Você não pensa, afinal, você tem pressa e afoba-se, esquece o lento, e o quanto é importante parar o tempo como se você fosse realmente o senhor de todas as coisas. Você não para, não quer parar, então o vinho não se dissolve na boca, e você nem se quer pensa no sabor fermentado que a melhor uva pode estar te dando, é questão de tato, e você o perdeu. Então alguém te diz que é pra ti pegar leve, mas você dá de ombros, e logo vê as letras contornando a tela do computador e formando círculos na sua cabeça. Calma! Você não está bêbado, você nunca fica bêbado, você está inspirado. Aí você sente uma agradável sensação, como se estivesse prestes a se deitar em um colchão de nuvem, mas você não larga a taça! E então ela se quebra. Você como se tivesse caído, não mais está debruçado em nuvens e sim no parquet gelado do teu quarto. Você entreabre os olhos e vê, claramente você vê, uma mão gélida, que outrora estava suando de tanta euforia. E você vai se levantar, quando alguém te diz que é nesta hora que de tudo podemos esperar, talvez um ser celestial te dê a mão, e tu te levante triunfalmente e ande pelos cômodos da casa, sabendo que és o dono da situação. Mas de fato isso não acontece, você precisa ir ao banheiro, você tenta duas ou três vezes e então te levanta, mas a cabeça, a cabeça dói como se fosse uma laranja num espremedor de frutas. Finalmente você chega ao banheiro, se depara com sua cara amassada e boba no espelho, mas você sente um conforto repentino no ego, pois só você pode compartilhar aquele momento, você e o espelho, que parece ter nódulos, tornando a sua face uma superfície rugosa. Então aquele alguém te chama, não mais vem advertir, nem se utilizar de palavras supérfluas que você já está cansado de ouvir, ela clama milhares de vezes para que você desta vez, - Tome um barbitúrico e vá dormir!

Sunday, May 06, 2007


Haviam pássaros que cantavam no timbre da infância e haviam flores que coloriam o jardim e também balanços que movimentavam as manhãs ensolaradas da primavera. Não recordo-me dos dias frios, com exceção dá páscoa, em que corríamos freneticamente à procura dos multicoloridos ovos que por sua vez enfeitavam os ninhos e adocicavam aqueles dias escuros, porém brilhantes! Haviam beija-flores à procura de néctar assim como à todo momento procurávamos diversão. As manhãs eram infinitamente longas e o término destas era comprovado com desapontamento, mas de qualquer forma havia barulho e este jamais silenciava enquanto o horizonte do entardecer não despontava dando lugar à belas estrelas, que só eram possíveis contarmos em noites de Natal. E eram muitas, não fosse pelas tantas luzinhas, as casas se iluminariam de intermináveis constelações que pairavam pelos telhados. Havia uma saborosa espera ritualmente bolada naquelas noites, para que os presentes de Natal não fossem meros enfeites na árvore, e sim o motivo pelo qual nossos olhos brilhavam ansiosamente. Era chegada à meia noite, algumas casas podiam ter o prazer de receber o Papai Noel, como na minha, mas este não muito me agradava, o que realmente fascinava eram os sinos, que batiam ritmicamente indicando o fim de uma longa espera. Eu hei de convir, que com o passar dos anos este cenário habitualmente familiar presente como um vulto repentino na memória se transformou de maneira estrondosa, fazendo com que neste momento, eu admire esta paisagem não mais colorida como outrora. O silêncio paira sobre o jardim, não há mais tantos pássaros à procura de flores nem mesmo pétalas de rosa espalhadas pelo chão pois a roseira que escondia o muro, não existe mais, deixando transparecer sob a pintura os sulcos dos tijolos gastos pelos anos. O balanço que nos velhos tempos nos levava às alturas, não mais compõe a paisagem. Procuro remontar na memória aquele jardim de despreocupação, um soneto lírico cuidadosamente arranjado para que a infância nada mais fosse que uma bela lembrança dos bens que compunham aquela existência lúdica. Hoje somam-se vinte anos, prefere-se os dias frios e nublados a dias ensolarados de primavera, e prefere-se à noite que nem sempre cintila estrelas e a leveza que só o silêncio pode contemplar e rapidamente os dias consolidam pontes enfraquecidas pelos anos que somente belas recordações podem remontar.