Friday, March 28, 2008

Analogias ao mundo moderno
"Édipo sem olhos enxergava, renan calheiros usando
óculos não enxerga."
O nascimento da tragédia
Os gregos foram sempre descritos como dominados pelo culto àbeleza e pela busca de leis e medidas tanto éticas quanto estéticas.Uma sabedoria mítica e arte trágica davam testemunho da presença de uma vigorosa filosofia pessimista. Os gregos teriam sido um povo de sensibilidade extrema para a vida, e com uma capacidade única para o sofrimento. Para viver tiveram que criar “ prazerosas e enganadoras ficções
Graças a uma “ sabedoria da aparência e da arte”, os gregos foram capazes de manter afastados os perigos representados por aquela sabedoria pessimista e também por ameaças vindas de fronteiras distantes como as festividades bárbaras orgásticas. Mesmo em um momento de perigo supremo a cultura grega artística soube promover uma inédita aproximação entre essas forças impetuosas do dionisíaco e a bela aparência. Nasce assim a tragédia que segundo Nietzsche é o emblema maior de sucesso alcançado por uma sabedoria de ilusão da arte. O mundo grego da bela aparência guardado por Apolo é um mundo estruturado de forma a proteger o grego da dolorosa percepção de uma verdade imanente à vida.A vida é tragédia, os gregos perceberam essa verdade e na arte a modelaram ao extremo em histórias emblemáticas. Eles se mantiveram superiores a outros povos bárbaros que caíram em cultos imorais graças a sua sabedoria da arte e graças a terem perpassado de princípios morais a tragédia grega ática, mesmo sendo pessimistas em relação ao sentido maior da vida, que só veio a ser revelado posteriormente com os judeus, através da revelação mosaica.
O grego conheceu e sentiu os horrores e espantos da existência para poder viver teve que colocar diante dele a resplandescente cultura onírica dos olímpicos.”
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“O mesmo instinto que dá a vida à arte como um complemento e uma consumação da existência destinados à induzir, a seguir vivendo foi o que fez surgir também o mundo olímpico.” Efeitos estéticos eram artifício e antídoto a ausência do sentido da vida.”
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“Uma ausência completa de limites levaria o homem ao esquecimento de si, e é justamente na arte grega em que o povo encontrou um sentido.”

Sentido esse que os empunha princípios morais e éticos e o que os diferenciava dos outros povos, absortos em rituais que os elevavam a multidões homogêneas aniquilando a individualidade.

“Os princípios éticos e estéticos da medida e da beleza, realizados pela cultura grega apolínea representavam a demarcação de rígidas “barreiras” contra o avanço das forças dionísicas”.


A tragédia era a mídia da época apresentada através da arte formando a mentalidade do povo assim como as novelas hoje em dia com a vantagem quanto ao conteúdo daquela para esta.

Leônidas é um dos emblemas do idealismo espartano. A história grega antiga cantava heróis como Leônidas e Ulisses, a mídia canta heróis como Renan Calheiros.Renan Calheiros adulterou com a mãe ( a pátria) e matou o pai ( os princípios éticos) e não se inflingiu à cegueira e portanto mesmo tendo olhos é cego. O personagem Édipo da tragédia, cheio de culpa faz-se cego mas por isso mesmo ainda que cego vê ( com os olhos da alma.) ÉDIPO SEM OLHOS ENXERGAVA, RENAN CALHEIROS COM OLHOS NÃO ENXERGA. Renan é exemplo típico do que é em regra a nossa política, vemos a tragédia grega às avessas sem princípios morais ou éticos no planalto. Os jornais impressos, as Tv´s à cabo, web bloggers e noticiários da Grécia se centralizavam na expressão artística da época. A tragédia simbolizada pela linguagem oral e de expressão também é o berço de muitas figuras lingüísticas e metafóricas que estão presentes em nossa cultura, desde à literatura clássica à produções anônimas de web bloggers.

“A finalidade mais íntima de uma cultura orientada para a aparência e a mesura só pode ser com efeito o encobrimento da verdade”

Esta passagem sugere uma analogia ao que a nossa sociedade está vivendo, a partir do consumo acelerado, do surgimento de novas tecnologias e de informações muito rápidas e pouco codificadas criou-se uma sociedade de aparência, consumista. E em decorrência disto um padrão de beleza “inatingível” que só é atingido graças à tecnologia voltada a cirurgia estética. Por trás disto podemos apontar fatores como a necessidade de auto- afirmação do EU e da individualização dos povos em um mundo aparentemente perfeito que uma sociedade de consumo oferece. Assim como a sociedade Apolínea, hoje em dia este padrão de consumo e beleza sustenta os alicerces da sociedade moderna. Vale salientar que pessoas que não se encontram neste “novo padrão”, são consideradas aberrações, sofrem discriminação e preconceito e muitas vezes perdem uma boa colocação profissional justamente pela aparência disforme do padrão imposto. Podemos remeter este fato aos monstros mitológicos que essencialmente possuíam um quê de abomináveis. Produzimos minotauros em pleno século XXI e a ilha de Creta deles é a escória da nossa sociedade.
Diferente dos gregos no sentido da nossa sociedade considerar este padrão de perfeição somente estético em detrimento dos princípios éticos e morais. Perdemos por uma inversão de valores e conceitos, pois o verdadeiro ideal de perfeição e beleza descrito na tragédia grega traça fortemente a ética e a moral como forma de o homem alcançar a perfeição em uma sociedade corrompida e deturpada. Onde os prazeres muitas vezes falavam mais alto do que a razão, diminuindo o homem a um animal puramente instintivo. Estas fragilidades e potenciais de ambas as sociedades nos levam a crer que não seria nada mal se a medida e a manutenção dos padrões atuais levasse em conta as exigências apolíneas do “ conhece a ti mesmo” e do “ nada em demasia”. Nossa sociedade carece de líderes e de exemplos aos quais possamos nos espelhar para estabelecermos princípios e valores que nos tornem menos dissimulados e corruptos, assim como os gregos se espelhavam no divino. Estamos sob o “véu de maia” o véu da ilusão onde a imagem vale-se de tudo.

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[A expressão “véu de maia” vem do budismo que basea-se na concepção de que toda natureza visível é ilusória e que as realidades eternas são invisíveis. Segundo eles a diferença entre os sábios e os ignorantes é o produto do véu de maia. “O véu de maia nos mantêm adormecidos à medida em que limita nossas visões àquilo que entendemos como realidade: valorizamos somente o que é concreto, devemos obediência ao que o senso comum aprova e reconhecemos apenas os fenômenos empíricos, ignorando a legitimidade das experiências místicas. Nos sentimos inadequados cada vez que percebemos que o essencial é invisível aos olhos ou manifestamos o anticonvencional.”]



A sorte está lançada

A arte quer nos convencer do eterno prazer da existência: Só que este prazer, não devemos buscá-lo nas aparências, mas sim por trás delas.”


A tragédia que se apresenta através do poeta Ésquilo é revelada em um mundo de caos de forças sinistras inegáveis que nem mesmo a perfeição apolínea não pode anular, assim conclue-se que mesmo em uma sociedade com muitas características formadoras de grandes homens revela-se uma raiz intrínsecamente má. Por isso o pecado é para nós o símbolo da tentação e da morte também. Nossa crença popular nos leva a isto, muito os homens evoluíram na sua religiosidade e ela implica um duelo entre duas forças, assim como a batalha de tróia e as conquistas de esparta. O bem e o mal enfrentando-se cara a cara, na nossa vida e nas nossas ações, e é isto que a tragédia relata. O meramente humano, o símbolo do que poderia ser perfeito se não houvesse o pecado. Ésquilo diz: “Do que fala a sabedoria mítica senão daquela dolorosa experiência humana pela qual somos levados a “conhecer” a verdade da vida?”
Entre deuses e homens sobram aqueles que morrem. Mas há também aqueles que mesmo mortos formam modelos vivos e é esta a essência da tragédia grega que perdura em pleno século XXI.

Para Nietzsche a Tragédia Ática deve ser compreendida como esse “jogo estético da cultura apolínea” do “nada em demasia” com aquele mundo submerso do dionisíaco.
“Se a cultura apolínea divinizou os princípios da medida da harmonia e da bela aparência e com eles construiu um fascinante “artifício de velamento”, foi justamente porque pressentia próximo esse perigo, experiência esta traduzida pelo mito naquelas forças descomunais que dilaceraram Prometeu e conduziram o sábio Édipo a um pavoroso destino.”
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Esparta deu à luz a líderes, formadores de homens, onde por trás de cada homem havia uma grande mulher. Homens que eram fortes e brutos ao tempo que eram fracos e sensíveis. A guerra motivada pela libertação de um povo me faz pensar que nem tudo que é mal é totalmente mal ou ruim, há coisas que mesmo essencialmente brutais e devastadoras contribuem para algo genericamente bom. Estes homens que se levantaram no passado para tornar um pouco que seja, menos verdadeira a máxima do homem ser o lobo do homem. Sob esta perspectiva o filme 300 de Esparta se revela uma obra paradoxalmente grandiosa. E não há como negar que mesmo dentro daquela carnificina há romance entrelaçado em uma obstinada busca por um ideal comum. O espírito da mensagem do filme é a maneira pela qual todas as relações feitas aqui foram desenvolvidas partindo do fato de que a Grécia Antiga assim como a Idade Moderna, foi baseada nas duas forças que movem o planeta desde que o mundo é mundo. Sendo conhecedores destas duas faces da verdade tanto gregos quanto homens modernos buscam expressar através da cultura uma maneira de compreender o mundo, de situar em um plano perceptivo aquilo que sua alma sozinha não pode suportar.

Thursday, January 10, 2008


A ignorância não vale a pena



Poderia começar falando sobre a violência, mas todos hão de convir que este é um tema que já se tornou mais do que clichê. Então, ao refletir sobre a realidade que nos é apresentada no filme TROPA DE ELITE, prefiro dissertar a respeito da ignorância que persiste em circular nos meios onde ela não deveria estar presente, como numa instituição de educação, por exemplo.
É triste constatar que a ignorância prevalece sem distinção. Não existe diferença entre o rico bem orientado e o pobre que não possui educação, se tratando de ignorância estão todos sob o véu do senso comum.

Outro tema que também está batido é o da desigualdade social. Todos nós sabemos que ela existe e as opiniões divergem de lá para cá e daqui para lá. Há muito tempo o homem constrói um mundo por meios imorais apesar de ter sido o próprio homem quem inventou o conceito de moral. A questão torna-se uma dúvida cada vez que problemas sociais vêm à tona, pois são muitas falhas e inércia para pouca ação. Falho é o sistema que tenta corrigir outro sistema falho. A educação trata-se de um investimento e ao que parece não consta nos nossos bens primordiais. Meios existem, boa vontade também, porém, encurtar o caminho e optar por uma vida fácil é a questão mais dissertada por aí. No enfoque de problemas e erros para cada tentativa de consertar um erro há uma pedra que pavimenta um caminho para o inferno e ao caos total. Um jovem bonito, inteligente com sede de viver, transita pelas ruas. Ele não é diferente dos outros, pois afinal, existem tantos jovens. Seu rosto estampa um semblante reflexivo, e ao mesmo tempo melancólico. O verde que tremula na bandeira de seu país, não o instiga a ser um patriota convicto, e a única bandeira que o faz sentir orgulhoso, é a do time para a qual torce. São preferências e não escolhas. Preferir continuar aqui porque estar lá é difícil, e estar lá porque estar aqui faz com que a dúvida consuma o espaço da escolha. E assim somos jovens tão velhos e tão acomodados quanto o nosso sistema. Fumar um cigarro de maconha é um símbolo de autonomia para muitos, e para outros é apenas uma das faces de uma fatal escravidão. Financiamos dia após dia a raiz dos nossos problemas. E aliciamos nosso caráter como se ele fosse o capital de giro das nossas ações impensadas. O nosso entretenimento pode ser uma desgraça se não soubermos com o que nos entreter, é muito fácil se divertir quando não se tem respeito por nada. Assim como é mais fácil ainda rir quando não existem limites. Assim para aqueles que persistem em acreditar que a relva é como uma sombra lúdica proporcionada por uma árvore espaçosa em meio a um campo infinito, que dá asas ao pensamento e faz com que a visão de mundo se amplie a uma ótica em câmera lenta. Proponho um desafio, que tentem podá-la. Podem o tronco que abre ramificações ilusórias no pensamento tão reles mortal, tão quadrado. Somos seres em movimento precisamos transitar nesta órbita ao invés de nos acomodarmos em frente à televisão e lamentarmos os tempos atuais dramatizando um passado brilhante de glórias e acontecimentos dignos de um prêmio Nobel. A questão está em simplificar as coisas, tudo o que somos, só o somos porque não seriamos nada caso não fossemos alguém. E ser alguém é estar consciente de que a ação está à frente do carro principal da nossa vida, e a lucidez é a forma mais precisa de guia-lo.

Saturday, October 27, 2007



Sobre o sonho...


Um homem no alto de um andaime fortalece o reboco de uma construção, enquanto isso a rua oscila entre o movimento dos transeuntes e dos ônibus e carros que passam. A estrutura da cidade parece comportar todos os pedestres mal vestidos e bem vestidos, os bêbados caídos na sarjeta os mendigos e papeleiros, os doutores e as socialites. Pessoas que se incorporam a um incessante vaivém. O dia é cinzento da cor do cimento que o homem pacientemente prepara para concretar as futuras paredes de um edifício. O sol nem mesmo tem a chance de se por no horizonte, pois o dia está pálido como uma árvore frutífera no outono.

Como um filme rodado em película preto e branco ele segue sem muitas expectativas, o cotidiano se reafirma quando ao entardecer as mães buscam seus filhos na escola, os trabalhadores marcham rumo à suas casas e os carros engarrafam o trânsito. Existe algo de monotonia nesta segunda-feira, nem mesmo as manchetes dos jornais ou os hiperlinks do navegador conseguem abrir uma janela que traga um fato brilhante a este dia, que soa como badaladas de um sino de igreja compassado demais.

Deitada no divã, esta uma mulher que sofre com problemas de distúrbio de sono, para ela o mesmo dia que está prestes a começar, para muitos está chegando a seu fim. Ela sonha, sonha acordada enquanto o divã vai relaxando seus músculos à medida que uma voz se incorpora à sala. Uma sala não muito espaçosa, bem mobiliada, cheirando a sândalo. O cheiro também se incorpora na imaginação da mulher e ela agora aliviada, pode ter certeza de que o sonho é mesmo real.

Sonha-se dormindo e sonha-se acordado, como se o pensamento dela fosse o sonho da noite anterior que a conectaria ao presente. Há um espelho que reflete sua nudez, a identidade que só possui corpo enquanto a alma não pode ser refletida, ali está uma porta entreaberta para ela extrapolar os limites impostos pelo pudor. Talvez ela sonhe com algo que nunca aconteceu, com um passado invisível em sua vida, como uma das faces ocultas de uma obra surreal. Então sonha-se em vão como se fossemos um mero boneco de engonzo neste teatro real. Para descrever um sonho é preciso lembrar-se dele, então é muito fácil compará-lo à memória mais remota que possamos obter.

No dia à dia, montamos artifícios para fazer com que nossos sonhos tornem-se realidade ou fazemos da realidade o nosso próprio sonho? Viver ou sonhar eis a questão, neste paralelo acredito que não existe espaço para ilusão, pois a linearidade da vida é sonhar. Enquanto o homem levanta paredes, ele sonha com as cores as quais poderá pintá-la e sonha também com a forma das aberturas que dará às janelas e com o quê a parede vai esconder o que antes estava explícito.O movimento permanecerá o mesmo, as pessoas continuarão no mesmo ritmo, e sonharão sempre em ser algo que na rua, elas não podem ser. E por isso, a cidade continua em sua monotonia de ir e vir, sem cores substancialmente vivas para colori-la.

Enquanto somos jovens e bonitos queremos ser vistos como tal, quando formos velhos esconderemos as rugas ou as deixaremos tomar conta de nossa face, de qualquer forma a beleza que encanta o dia que se fará amanhã é a mesma com que sonhamos enquanto estamos dormindo um sono reparador. Reparar os estragos é sonhar com um conserto, e um concerto é um sonho artístico em elevado tom. Entre manutenção, concertos e desconsertos é preciso derrubar cenários, para construir novos, ou mudar os móveis de posição para deixar a sala mais aconchegante. Esta é a fantasia que queremos aprontar de antemão nos sonhos, para que o próximo carnaval seja mais radiante do que o último, mesmo que todo carnaval tenha fim.

Thursday, July 19, 2007


Enredo Trágico!!!!!!
Era hora de recolher-me ao aconchego do berço, quando ouvi a notícia sobre o acidente do Airbus da Tam. Dois dias se passaram e as capas dos jornais sugerem luto e consternação. O fato de mais de cem pessoas morrerem de forma tão brusca indica o quanto nós estamos vulneráveis e impotentes diante dos acontecimentos. Faz-se necessária uma reflexão a respeito desta situação. O governo lastimou a perda de tais cidadãos e declarou luto oficial por três dias, uma ação sublime para quem vem dispensando atenção impar para com os fatos. Recentemente noticiou-se que o acidente poderia ter sido causado por uma falha no reverso das turbinas do avião, com o agravante da pista molhada a confirmação só virá com a abertura da caixa preta, que aliás, está sendo mandada para análise fora do país. Porque será? Porque além de deficiente, nosso sistema aeroviário vem apresentando falhas desde os últimos descalabros dos “apagões”, que por algum tempo estiveram presentes nas capas dos jornais em circulação no país. Nosso presidente além de declarar luto deveria tomar vergonha na cara, e tomar as rédeas do governo antes que o caos se instale novamente. As cenas chocantes dos escombros do edifício da Tam Express, não tocam apenas as famílias das vítimas, e sim todos os cidadãos que em frente à televisão se comoveram com tamanha barbaridade. Algo que poderia ser impedido não se trata de acidente e sim de irresponsabilidade, mais uma vez o jeitinho brasileiro “não dá nada” culminou em conseqüências irreparáveis para o país. Não se trata de uma fatalidade, as pessoas que estavam no vôo, em sua maioria, cumpriam seu papel, estavam trabalhando ao invés de encher o bolso com dinheiro dos cofres públicos aliás, esta frase vem se tornando clichê. O Brasil ao tempo que ganha, perde e assim nada vai para frente, esta tragédia só faz com estejamos mais convictos de que este emaranhado dissoluto de decisões mal tomadas pelo poder atuante tem de ser esclarecido, do contrário o vôo 3054 será o principio do que ainda está por vir.

Tuesday, July 17, 2007


Go Home! "Horror B"



O filme “Turistas” nada mais é do que um horror barato. A sutil semelhança com “O Albergue” de Quentin Tarantino não faz dele melhor. Sua estréia nos EUA, sob críticas arrasadoras de alguns dos principais jornais do mundo, só denotam o quanto o roteiro é equivocado. Ao apontar pontos fracos do Brasil, a história acaba virando um emaranhado de ideologias mal sucintas, que fazem com que o espectador se sinta horrorizado, ou como eu, indignado. As possibilidades de turistas que vem passar as férias no Brasil serem drogados, roubados, seqüestrados e torturados vítimas de uma quadrilha que rouba órgãos, liderada por um médico anti-imperialista e pseudo-nacionalista são surreais. O que denota uma falta de realismo e ponderação da parte do roteirista e do diretor do filme. Os turistas são burros e estão em busca de diversão barata, mulheres fartas, calor humano e praias paradisíacas.
O Brasil do carnaval e do futebol oferece tudo isto e mais um pouco, apesar de dissoluto não deixa de ser lírico, enquanto que o Brasil descrito no filme, é horror. As belas paisagens ficam atrás do enredo chocante. Faniquito, para quem odeia que falem mal do Brasil, e deixa, para uma polêmica na qual cada um pode defender o que lhe convém. A falta de tato do diretor John Stockwell ao utilizar um cenário paradisíaco transformando em “horror show”, se confirma pelo efeito surtido nas pessoas que assistiram o filme, estas ficaram chocadas pelo muito sangue derramado nas cenas que incluem exploração sexual, sadismo e xenofobia. Discordo com o ponto de vista do produtor Raul Guterres, ao alegar que nossa imagem já prejudica o Brasil. O Brasil fora explorado, e não de veras colonizado como os Eua, as conseqüências deste retrospecto são visíveis em nossa cultura, mas isso não faz de nós um lar de maníacos assassinos, alucinados por idéias psicóticas. e sim um país de marginalizados pela falta de oportunidade e pela cultura do tráfico. O homem é mal, seu instinto é perverso independente da sua nacionalidade, a procedência ainda desconhecida, sugere ser a mesma. Ora pois haveríamos de ficar calados ao ver nosso Brasil, malogrado e pintado de uma maneira da qual não é. Encerro este ensaio, politicamente mal correto, rezando para que o público estrangeiro realmente entenda o filme como mais um “horror show” americano, como sugere Dennis Harvey, crítico da bíblia do cinema, a “Variety”.

Tuesday, May 15, 2007


Uma súbita abstração desenrola palavras doces com sabor de vinho tinto, seco.

Alguém te disse que enquanto seu café esfria sobre a mesa e as folhas do jornal posto à frente dos teus olhos, voam com o vento, dissipando as páginas ao tempo que a vertigem mundana instalada do lado de fora, por vezes ensurdecedora, corre impetuosamente sem que os ponteiros do relógio possam se quer controlá-la. Pois é assim que você se sente, impotente aos acontecimentos que se fazem presentes nesta batalha diária, contra o tempo. Muitas vezes o inesperado se faz espera, e não há porque tanto falar em esperar quando isto é em vão. Alguém te disse que amanhã possivelmente fará frio, mas a sua antena ligada 24 horas às intempéries da vida, não te disse que era para ti te agasalhar, e você não dá a mínima para as máximas, afinal, você mesmo diz que o frio é psicológico, mesmo não sendo entendedor das teorias psicanalíticas, e se este alguém ousar te apresentar um cara, quem sabe aquele tal de Skinner, você provavelmente dirá: - Um doido varrido!Então, agora você está sentado diante do seu computador, conectado ao que você quiser, mas sente que está faltando algo. Então, você abre uma garrafa de vinho e o saboreia lentamente, pensa no tempo que levou para que ele estivesse ali pousando nas tuas papilas? Você não pensa, afinal, você tem pressa e afoba-se, esquece o lento, e o quanto é importante parar o tempo como se você fosse realmente o senhor de todas as coisas. Você não para, não quer parar, então o vinho não se dissolve na boca, e você nem se quer pensa no sabor fermentado que a melhor uva pode estar te dando, é questão de tato, e você o perdeu. Então alguém te diz que é pra ti pegar leve, mas você dá de ombros, e logo vê as letras contornando a tela do computador e formando círculos na sua cabeça. Calma! Você não está bêbado, você nunca fica bêbado, você está inspirado. Aí você sente uma agradável sensação, como se estivesse prestes a se deitar em um colchão de nuvem, mas você não larga a taça! E então ela se quebra. Você como se tivesse caído, não mais está debruçado em nuvens e sim no parquet gelado do teu quarto. Você entreabre os olhos e vê, claramente você vê, uma mão gélida, que outrora estava suando de tanta euforia. E você vai se levantar, quando alguém te diz que é nesta hora que de tudo podemos esperar, talvez um ser celestial te dê a mão, e tu te levante triunfalmente e ande pelos cômodos da casa, sabendo que és o dono da situação. Mas de fato isso não acontece, você precisa ir ao banheiro, você tenta duas ou três vezes e então te levanta, mas a cabeça, a cabeça dói como se fosse uma laranja num espremedor de frutas. Finalmente você chega ao banheiro, se depara com sua cara amassada e boba no espelho, mas você sente um conforto repentino no ego, pois só você pode compartilhar aquele momento, você e o espelho, que parece ter nódulos, tornando a sua face uma superfície rugosa. Então aquele alguém te chama, não mais vem advertir, nem se utilizar de palavras supérfluas que você já está cansado de ouvir, ela clama milhares de vezes para que você desta vez, - Tome um barbitúrico e vá dormir!

Sunday, May 06, 2007


Haviam pássaros que cantavam no timbre da infância e haviam flores que coloriam o jardim e também balanços que movimentavam as manhãs ensolaradas da primavera. Não recordo-me dos dias frios, com exceção dá páscoa, em que corríamos freneticamente à procura dos multicoloridos ovos que por sua vez enfeitavam os ninhos e adocicavam aqueles dias escuros, porém brilhantes! Haviam beija-flores à procura de néctar assim como à todo momento procurávamos diversão. As manhãs eram infinitamente longas e o término destas era comprovado com desapontamento, mas de qualquer forma havia barulho e este jamais silenciava enquanto o horizonte do entardecer não despontava dando lugar à belas estrelas, que só eram possíveis contarmos em noites de Natal. E eram muitas, não fosse pelas tantas luzinhas, as casas se iluminariam de intermináveis constelações que pairavam pelos telhados. Havia uma saborosa espera ritualmente bolada naquelas noites, para que os presentes de Natal não fossem meros enfeites na árvore, e sim o motivo pelo qual nossos olhos brilhavam ansiosamente. Era chegada à meia noite, algumas casas podiam ter o prazer de receber o Papai Noel, como na minha, mas este não muito me agradava, o que realmente fascinava eram os sinos, que batiam ritmicamente indicando o fim de uma longa espera. Eu hei de convir, que com o passar dos anos este cenário habitualmente familiar presente como um vulto repentino na memória se transformou de maneira estrondosa, fazendo com que neste momento, eu admire esta paisagem não mais colorida como outrora. O silêncio paira sobre o jardim, não há mais tantos pássaros à procura de flores nem mesmo pétalas de rosa espalhadas pelo chão pois a roseira que escondia o muro, não existe mais, deixando transparecer sob a pintura os sulcos dos tijolos gastos pelos anos. O balanço que nos velhos tempos nos levava às alturas, não mais compõe a paisagem. Procuro remontar na memória aquele jardim de despreocupação, um soneto lírico cuidadosamente arranjado para que a infância nada mais fosse que uma bela lembrança dos bens que compunham aquela existência lúdica. Hoje somam-se vinte anos, prefere-se os dias frios e nublados a dias ensolarados de primavera, e prefere-se à noite que nem sempre cintila estrelas e a leveza que só o silêncio pode contemplar e rapidamente os dias consolidam pontes enfraquecidas pelos anos que somente belas recordações podem remontar.